A unidade bem e mal aplicada na indústria

Expliquei anteriormente a importância do princípio da unidade. Resumidamente, a unidade de uma composição refere-se ao grau com que seus diversos elementos combinam-se para produzir um efeito total maior do que o que seria possível pela mera justaposição deles. Trata-se de algo importantíssimo, mas freqüentemente esquecido, tanto na vida particular quanto no ambiente organizacional. Vale a pena agora examinar alguns exemplos célebres da relevância prática do princípio. Comecemos pelo que é talvez o maior e mais conhecido caso de sucesso, a Apple.

Até meados dos anos 1990, a empresa era conhecida quase exclusivamente por seus computadores desktop. Quando Steve Jobs voltou de seu exílio e quis colocar a empresa nos eixos, continuou nessa linha e veio com os iMacs, que foram bem-sucedidos e levandaram a empresa do abismo. Ao invés, porém, de meramente insistir nessa direção, lançaram um tocador de músicas, o iPod, que veio a dominar o mercado. Nisso já vemos algo estranho: são mercados totalmente distintos, exceto pelo fato de ambos usarem eletrônicos; a princípio, poderiam ter lançado um barbeador e faria o mesmo sentido. O que os uniu? O software iTunes, que rodava nos iMacs e fazia a ponte com o iPod. No meu entendimento, com essa jogada a Apple deixou de ser uma “empresa de computadores” e passou a ser uma empresa de “estilo de vida digital”, cujos produtos cooperam visando esse fim maior [1]. Eis aí o que lhe deu unidade e mudou sua sorte definitivamente.

Poder-se-ia imaginar que tratou-se de mero acidente. Mas o lançamento posterior do iPhone, outro sucesso, mostrou que de fato havia um princípio organizador agindo. É revelador que a Apple manteve o nome “iTunes” em seu software de compras, embora a essa altura o programa já vendesse muito mais do que músicas (“tunes”), passando de vídeos até softwares para o novo portátil (e hoje em dia até para os desktops). Poderiam ter renomeado a coisa, mas evidentemente apostaram na continuidade, usaram um elemento de peso para fortalecer toda a composição. Deu certo.

O Google é outro exemplo feliz. Nasceu como um buscador de páginas da Web superior e logo se espalhou para outros ramos, notoriamente com seu sistema de emails, o Gmail. Uma característica interessante deste último é seu uso de buscas sofisticadas aplicadas aos emails dos usuários. Mais do que isso, porém, ambas as iniciativas seguem o mote central da companhia, que é declaradamente “organizar as informações do mundo e torná-las universalmente acessíveis e úteis”. Com isso em mente, pode-se compreender como os diversos produtos da empresa se relacionam num todo coeso. Penso, no entanto, que há algo ainda faltando nessa fórumula. Como, por exemplo, expllicar os carros autônomos que estão desenvolvendo? Eu suspeito que os executivos da empresa têm, sim, um fim unificador em mente, que permanece um tanto misterioso para quem vê de fora. Mas nada garante o sucesso último da estratégia [2].

Quando falo em unidade, tenho em mente algo informal, que como tal requer alguma coisa intangível para ser bem aplicada. Fica fácil usá-la mal, mesmo para quem tem alguns bilhões de dólares disponíveis [3]. E uma vez que a unidade de uma composição determina largamente seu valor final, os riscos envolvidos são consideráveis, quiçá existenciais.

No mesmo contexto dos exemplos anteriores, aqui podemos tomar o design do Windows 8 da Microsoft. A idéia em sua forma abstrata soa boa: reduzir os elementos da interface gráfica a componentes que possam ser usados tanto em desktops quanto em outros dispositivos, principalmente celulares e tablets. Sua implementação, contudo, foi catastrófica: uma quimera que mistura o que dá certo no desktop com o que funciona nos tablets, resultando numa aberração que até o usuário final comum reconhece como horrenda. E digo isso como alguém que aprecia a nova interface que a Microsoft criou, desde que isolada e num dispositivo tátil. O problema é que ela conflita com os mecanismos tradicionais. Há aqui um resultado geral importante: se A é algo bom e B também, isso não significa que A + B o será. Em Computação, dizemos que essa soma não é composicional. Muitas coisas na vida não o são [4].

Citei exemplos famosos porque quase qualquer um pode compreendê-los. Todavia, não é difícil ver o princípio aplicado, bem e mal, em muitos outros casos. Da próxima vez que entrar numa loja, mercado ou algum outro estabelecimento, tente pensar no que unifica todas as ofertas — especialmente quando alguma delas for inusitada. Faz sentido, digamos, um mercado oferecer cartões de crédito? Mais importante: nas suas próprias empreitadas, seus esforços se somam em algo maior ou se diluem mutuamente? A resposta não é fácil, é necessário prática e reflexão para elaborá-la, principalmente porque antes de tudo convém descobrir o que faz de você alguém único e valioso [5].

 

Notas

[1] Paradoxalmente, esse é um dos motivos pelos quais eu prefiro ficar longe dos produtos da Apple, apesar de reconhecer suas virtudes. Quando você compra um Mac, não está adquirindo apenas um computador, mas também um (caro) estilo de vida. Abri apenas uma exceção para o iPad, para o qual não encontrei nenhum substituto à altura (por causa das proporções da tela, é um melhor leitor de PDFs).

[2] Assim como numa obra de arte, a execução final, os detalhes, e até mesmo a sorte, são fundamentais. O sucesso atual da Apple nos faz esquecer um pouco que o ethos da empresa não mudou muito desde o tempo em que quase fechou as portas. O iPhone e iPad atuais, por exemplo, são reiterações bem executada de produtos anteriores fracassados, como o Newton, todos frutos de idéias bem pensadas. Confira estes vídeos conceituais da Apple antiga.

[3] Ineficiências dessa espécie são uma mina de ouro para empreendedores. Numa sociedade livre, embora a prosperidade normalmente seja generalizada, é difícil ficar no topo por muito tempo.

[4] Tente sugerir a um francês misturar vinho tinto com vinho branco para produzir um rosé.

[5] Os gregos antigos pareciam ver tanta importância e dificuldade nisso que resolveram transformar o sensato conselho em dogma religioso. A máxima “conhece-te a ti mesmo” virou assim uma exortação pública, inscrita em pedras no famoso Templo de Delfos. A inscrição em si já desapareceu, mas as ruínas do Templo continuam lá, num dos lugares mais majestosos e inspiradores que já visitei.

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